A Subturma B do 4º ano do curso de Medicina da Univás está desenvolvendo um projeto de conscientização com o objetivo de conscientizar sobre interrupção de medicamentos durante tratamento de doenças crônicas. “Você toma o mesmo medicamento todos os dias. Faz isso durante meses, às vezes durante anos. Então realiza novos exames, recebe a notícia de que os resultados estão bons e pensa: ‘Se agora está tudo normal, por que eu ainda preciso desse remédio (?)’. Essa dúvida é compreensível. O problema é que, quando falamos de doenças crônicas, um exame normal nem sempre significa que o problema desapareceu. Muitas vezes, significa justamente que o tratamento está funcionando. É por isso que interromper um medicamento por conta própria pode desfazer um controle que levou meses ou anos para ser alcançado”, explica a acadêmica Camila Castro.

Os acadêmicos deixam bem claro que o conteúdo trabalhado possui caráter educativo e não substitui avaliação ou orientação individualizada realizada por profissional de saúde.O projeto está sob a orientação dos professores doutores Alan Procópio Andrade e José Renato de Melo. Participam os acadêmicos Bryan Rodrigues, Camila Castro, Dionnata Martins, Emilly Cimadon, Fernanda Moura, Henrich Yaguchi, Henrique Godoy, Isabella Rosa, Lívia Palermo e Natália Paletta.

Segundo os alunos, muitos medicamentos de uso contínuo não são prescritos para fazer você “sentir” alguma coisa. Eles são utilizados para manter alguma coisa sob controle. “Uma pessoa que toma um medicamento para hipertensão, por exemplo, pode medir a pressão durante o tratamento e encontrar 120 por 80 mmHg. Isso não significa necessariamente que ela deixou de ser hipertensa. Pode significar que a pressão está controlada porque o tratamento está funcionando. Se essa pessoa interromper o medicamento simplesmente porque encontrou uma pressão normal, ela retira justamente uma das medidas que estavam ajudando a manter aquele resultado”, afirma Camila.

Segundo o projeto, com outros medicamentos acontece algo semelhante. Alguns controlam a glicose, outros diminuem a formação de coágulos, outros reduzem o colesterol, sendo que em determinadas situações, esses tratamentos não estão apenas melhorando números em um exame: estão sendo utilizados para diminuir a probabilidade de complicações futuras.
Confira outras perguntas frequentes tratadas no projeto:
Mas colesterol alto faz mal mesmo se eu não estiver sentindo nada?
Sim. E esse é justamente um dos motivos pelos quais ele merece atenção.O LDL-colesterol elevado geralmente não avisa que está alto. Ele não costuma causar uma dor específica, febre ou algum desconforto que faça a pessoa procurar atendimento imediatamente.
Enquanto o paciente segue sua rotina normalmente, partículas de LDL em excesso podem penetrar e ficar retidas na parede das artérias. Com o passar dos anos, esse processo participa da formação das placas de aterosclerose.
É importante entender que isso não acontece de um dia para o outro. A aterosclerose é construída silenciosamente ao longo do tempo. Durante anos, uma pessoa pode trabalhar, viajar, praticar suas atividades e não sentir absolutamente nada enquanto a doença vascular progride. Muitas vezes, o primeiro sinal evidente aparece somente quando uma placa sofre uma complicação e prejudica a circulação de sangue. Se isso acontecer em uma artéria que leva sangue para o coração, uma das possíveis consequências é o infarto. Se acontecer na circulação cerebral, pode ocorrer um acidente vascular cerebral, o AVC.
É por isso que tratar o colesterol antes que alguma coisa aconteça é tão importante. O objetivo é não esperar o corpo avisar da pior maneira.
E onde entra a estatina nessa história?
A estatina entra justamente para reduzir um dos principais participantes desse processo: o LDL-colesterol.Para entender como ela funciona, pense no fígado como uma espécie de central de controle do colesterol do organismo. Ele participa da produção de colesterol e também possui estruturas capazes de retirar partículas de LDL que estão circulando no sangue. A estatina atua nessa central.
Ela bloqueia uma enzima chamada HMG-CoA redutase, utilizada pelo fígado durante a produção de colesterol. Quando essa produção diminui, a célula hepática percebe que possui menos colesterol disponível e reage aumentando a quantidade de receptores de LDL em sua superfície. O nome “receptor” pode parecer complicado, mas sua função é simples de imaginar: eles funcionam como pontos de captura.
Quanto mais receptores de LDL o fígado disponibiliza, maior é sua capacidade de encontrar partículas de LDL circulando pelo sangue, capturá-las e retirá-las da circulação.
É assim que a estatina consegue diminuir o LDL no exame de sangue. Ela reduz a produção de colesterol pelo fígado e, ao mesmo tempo, faz com que ele aumente sua capacidade de retirar LDL da circulação.
Então a estatina “limpa” minhas artérias?
Não é exatamente assim, e entender essa diferença é importante.A estatina não funciona como um produto que simplesmente “desentope” uma artéria. Seu principal papel é diminuir de maneira sustentada a quantidade de LDL circulante e, com isso, reduzir um dos principais estímulos para o desenvolvimento e a progressão da aterosclerose.
Além disso, em pessoas que já possuem doença aterosclerótica, o tratamento adequado ajuda a reduzir o risco de complicações cardiovasculares. Por isso, quando o médico prescreve uma estatina para uma pessoa que realmente possui indicação, o objetivo vai muito além de conseguir um exame bonito.
O alvo não é apenas o colesterol. O alvo é o risco de infarto, AVC e outras complicações cardiovasculares.
Meu LDL estava alto, comecei a estatina e agora está ótimo. Posso parar?
Aqui está justamente a situação em que muita gente se confunde.Imagine um paciente que tinha LDL de 180 mg/dL. Após avaliação médica, ele recebe indicação de tratamento, começa a tomar a estatina corretamente e, meses depois, realiza outro exame.O LDL agora está muito mais baixo. É natural olhar para aquele resultado e pensar: “Pronto, resolvi meu colesterol.”
Mas existe uma pergunta fundamental: por que o LDL diminuiu?
Se essa redução aconteceu durante o tratamento, uma parte importante da resposta pode ser justamente a estatina. Todos os dias, enquanto o medicamento está sendo utilizado, ele continua interferindo na produção hepática de colesterol e favorecendo uma maior retirada de LDL da circulação.
Portanto, o exame normal não prova que você não precisa mais da estatina. Ele pode ser a evidência de que ela está fazendo exatamente aquilo que deveria fazer.
Quando o medicamento é interrompido, esse efeito farmacológico deixa de ser mantido. Em muitos pacientes, o LDL volta a aumentar.
É semelhante ao que acontece com os óculos. Uma pessoa coloca os óculos e passa a enxergar com nitidez. Ela não conclui que, porque agora está enxergando bem, os óculos deixaram de ser necessários. Ela entende que está enxergando bem justamente porque está usando aquilo que corrige o problema.
Com muitos tratamentos crônicos, o raciocínio é parecido: controle não é necessariamente cura.
Mas por que tomar um comprimido todos os dias se eu não sinto diferença?
Porque o maior benefício pode ser justamente aquilo que você espera nunca sentir.
Ninguém toma uma estatina esperando acordar no dia seguinte se sentindo diferente. Você não consegue sentir o LDL sendo retirado da circulação e não consegue perceber, no cotidiano, a velocidade com que uma placa de aterosclerose está progredindo.
A prevenção cardiovascular funciona de outra maneira. O tratamento reduz um fator de risco hoje para diminuir a probabilidade de uma complicação no futuro. É difícil perceber um infarto que não aconteceu. É difícil perceber um AVC que foi evitado. Mas é justamente por isso que prevenção e adesão ao tratamento são tão importantes.
Para pacientes com indicação adequada, existe uma relação consistente entre a redução do LDL e a redução do risco de eventos cardiovasculares. É também por isso que as metas de LDL estabelecidas pela Sociedade Brasileira de Cardiologia ficam mais rigorosas à medida que aumenta o risco cardiovascular do paciente.
Quem já sofreu um infarto, um AVC de origem aterosclerótica ou possui doença cardiovascular estabelecida, por exemplo, precisa de uma estratégia diferente daquela utilizada para uma pessoa de baixo risco.
A estatina, portanto, não é prescrita simplesmente porque “o colesterol deu alto”. Ela faz parte de uma decisão baseada no risco que aquele paciente possui.
E se eu estiver tomando estatina há anos?
O tempo de uso, sozinho, não é um motivo para interromper o medicamento.
Se uma pessoa possui indicação para manter seu LDL reduzido, o fato de estar tomando estatina há cinco ou dez anos não significa que o medicamento “já cumpriu sua função”.
Na verdade, quando o objetivo é diminuir o risco cardiovascular ao longo da vida, manter o LDL adequadamente controlado durante o tempo em que existe indicação faz parte do próprio tratamento. Isso não significa que a prescrição nunca possa mudar. Ela deve ser reavaliada periodicamente, levando em consideração idade, doenças associadas, risco cardiovascular, exames, outros medicamentos utilizados e possíveis efeitos adversos.
A diferença está em quem toma essa decisão e com base em quê. O tratamento pode mudar porque houve uma nova avaliação clínica. Não simplesmente porque o paciente olhou para um exame normal e decidiu que não precisava mais dele.
E se eu tiver medo dos efeitos colaterais da estatina?
Ter dúvidas sobre um medicamento que será utilizado continuamente é legítimo. O caminho, porém, é conversar sobre elas.
As estatinas, como qualquer medicamento, podem provocar efeitos adversos. Quando existe suspeita de que isso esteja acontecendo, é possível avaliar se o sintoma realmente está relacionado ao medicamento, ajustar a dose, trocar a estatina ou considerar outras estratégias para redução do LDL.
A Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose de 2025 prevê alternativas justamente para pacientes que apresentam intolerância.
Portanto, existe uma diferença enorme entre “não estou tolerando bem esse medicamento e preciso conversar com meu médico” e “vou parar de tomar porque acho que ele está me fazendo mal”.
No primeiro caso, o tratamento pode ser revisto sem abandonar o objetivo de proteger o paciente. No segundo, existe o risco de simplesmente retirar uma terapia importante e deixar novamente o LDL sem o controle necessário.
Então qual é a pergunta que devo fazer antes de parar meu remédio?
Talvez não seja “eu ainda preciso desse medicamento?”.
Uma pergunta melhor seria: “O que está mantendo minha doença ou meu fator de risco controlado?”
Se a resposta inclui o medicamento que você toma todos os dias, retirá-lo por conta própria pode significar retirar justamente uma das razões pelas quais seus resultados estão bons. Isso vale para a estatina e também ajuda a compreender muitos outros tratamentos de uso contínuo.
Um exame controlado é uma boa notícia. Deve ser comemorado. Mas ele não significa automaticamente que chegou a hora de abandonar o tratamento.
No caso do colesterol, lembre-se de uma ideia simples: a estatina não é tomada apenas para melhorar o próximo exame. Ela é utilizada, quando indicada, para diminuir a exposição ao LDL e reduzir o risco cardiovascular ao longo do tempo.
Você pode não sentir o medicamento funcionando todos os dias. E esse é justamente o ponto. O objetivo não é sentir a estatina funcionando. É continuar protegido enquanto ela faz o trabalho que você não consegue enxergar.
Por isso, se seus exames melhoraram, continue fazendo o acompanhamento. Se tiver efeitos adversos, converse com o profissional responsável. Se tiver dúvidas sobre a necessidade do medicamento, pergunte. Mas não interrompa o tratamento por conta própria.
Às vezes, aquilo que parece ser um motivo para parar — “meus exames estão ótimos” — é justamente a melhor demonstração de que o tratamento está funcionando.
Referências:
RACHED, F. H. et al. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 122, n. 9, e20250640, 2025. DOI: 10.36660/abc.20250640.
MARTINEZ, T. L. R. Adesão, Conformidade e Persistência no Tratamento do Colesterol Alto. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 121, n. 11, e20240652, 2024.